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ARTIGOS

Um convite despretensioso

Publicado em 03/06/2015
Reproduo Internet/Boticrio
Um convite despretensioso

Hoje, aula prática na faculdade, exame neurológico, reflexos motores profundos. O professor ensina-nos o que sua experiência como neurologista tem mostrado a ele que funciona e, sabiamente, dá dicas de como realizar os exames de reflexos de forma eficiente: distraindo o paciente enquanto realiza as manobras com o famoso “martelinho”.



* Margarida Klauck


Realizados os experimentos com os demais colegas presentes na sala, é chegada minha vez de ser a cobaia. O professor começa a realizar o exame e, enquanto me examina, conversa para me distrair e obter o resultado esperado dos exames.

Sua primeira pergunta: “Tem namorado?” Penso um pouco antes de responder e termino por responder “sim”.

O restante do ocorrido não mais importa, pois o grande desencadeador desta reflexão foi a simples pergunta “tem namorado?” e minha resposta “sim”. Por quê? Porque respondi a pergunta de forma apenas “meio certa”. Sim, estou namorando, mas não, não tenho um namorado, mas uma namorada. 
As atuais repercussões de um inocente comercial do Boticário e as, até já antigas, da novela da globo Babilônia, com o beijo das experimentadas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, no mínimo despertam a atenção para qualquer ser humano que use sua ímpar capacidade de pensamento e sensibilidade.

Acho curiosas as declarações de que essas manifestações ferem a religiosidade, a família, a bíblia, que são contra a moral e os bons costumes, etc. Convido-os, portanto, a pensar um pouco comigo neste breve texto. 

Eu acredito em Deus, acho que Ele foi um cara muito bacana em nos dar inteligência, um cérebro incrível, um corpo maravilhoso e uma vida que nos dá todas as possibilidades pelo simples fato de sabermo-nos vivos. Esse Deus que prega ódio e repúdio aos outros não me representa, eu não o conheço, esse Deus que deve ser temido e que castiga aqueles que “não andam na linha” – seja lá qual for essa bendita... 
Enfim, Deus nos colocou aqui para termos experiências, para pensarmos e vivermos por nós mesmos e não para repetir o que os outros pensam, agir segundo suas regras.

Meu convite de hoje é singelo e despretensioso: vamos pensar mais por nós mesmos, sobre o que de fato queremos e quais são nossas opiniões e vontades, antes de simplesmente reproduzir discursos que sequer compreendemos e nos quais muitas vezes nem acreditamos, mas reverberamos para fazer parte de um grupo - e estendo esse "pensar" para todas as esferas da vida.

Eu cresci num ambiente 100% heterossexual, com influências 100% heterossexuais, com preconceito 100% homofóbico. E me relaciono com mulheres. Curioso, não? Curioso mesmo é acharem que o fato de o amor entre duas pessoas do mesmo sexo ser visto por crianças, ou quaisquer outras pessoas de outras idades – adolescentes, adultos, idosos -, irá influenciar a orientação deles.

Eu tenho algo a dizer que parece muito óbvio, mas que demoramos muito tempo pra entender: nós somos o que somos e devemos ser muito gratos por isso. Nós somos quem somos e devemos nos orgulhar disso. Quando de fato estamos em paz com nós mesmos, podemos experimentar sem receios as maravilhosas oportunidades que temos.

Quando libertamo-nos do que os outros pensam sobre nós – que muitas vezes é mero fruto do medo, nosso e principalmente daqueles que pensam “coisas ruins” sobre nós-, nos libertamos de querer influenciar também na vida alheia – principalmente de forma invasiva e negativa-, já que entendemos que viver é simplesmente isso: viver nossas experiências, nossos cotidianos, nossas oportunidades, é amar família, amigos, parceiros e, principal e essencialmente, amarmos a nós mesmos.

Deus é amor, as igrejas dizem, as religiões afirmam, os guias espirituais corroboram. Deus é amor mesmo, um amor que ainda estamos tentando descobrir, um amor que para vivermos precisamos nos libertar de muitas amarras e muitos dogmas sociais e religiosos, o Amor Incondicional. Não aquele que exige algo em troca, que te põe de castigo se você fizer algo errado, que te pune com o fogo do inferno se você pecar, que te escraviza se você não corresponder às expectativas, que te cobra carinho, atenção, reciprocidade.

Deus é esse amor que não pede absolutamente nada em troca e não esse amor condicional e condicionado que teimam em nos ensinar e que teimamos em reproduzir. Vamos parar de reproduzir e criar aquilo que de fato é importante pra nós, que é fruto verdadeiro do nosso pensamento.

Voltando ao dia de hoje, levei minha namorada ao aeroporto e, sem medos, despedi-me dela na entrada do portão de embarque, com beijos e abraços cheios de amor e carinho. Esses belos momentos me fazem feliz e completa e muito grata por tudo. Escolho ter felicidade em minha vida e sei que, se esse cara tão bacana que muitos chamam de Deus, me colocou aqui é porque ele queria que eu experimentasse isso: amor e felicidade. Queria que eu experimentasse a mim mesma, pensasse por mim mesma, amasse sem medo e com todo meu ser, sem barreiras e sem vergonhas.

O que de fato importa? O que te faz feliz? O que te faz ser melhor pra si mesmo e para aqueles que você ama?

Pense, só pense. Despretensiosamente.